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domingo, 3 de maio de 2015

O problema da "fé" nos partidos. Cegueira ou pensamento caolho?

[...] não existe uma repugnância pela desordem, nem tão pouco uma supervalorização da ordem, mas ambas fazem parte de um processo complexo, dialógico. Esta dialógica realizada entre essas noções do trinômio (ordem-desordem-organização), visam evitar o que Morin (1998, p. 214) chama de “pensamento caolho”.

[...] a organização é a disposição de relações entre componentes ou indivíduos, que produz uma unidade complexa ou sistema, dotada de qualidades desconhecidas ao nível dos componentes ou indivíduos. A organização liga, de modo inter-relacional, elementos ou acontecimentos ou indivíduos diversos que, a partir daí, se tornam os componentes dum todo. Garante solidariedade e solidez relativa a estas ligações, e, portanto garante ao sistema uma certa possibilidade de duração apesar das perturbações aleatórias. Portanto a organização: transforma, produz, liga, mantém (MORIN, 1977, p. 101).

Navegando pela internet, fui checar o que se está passando em Curitiba. Imagens de policiais contendo a desordem realizada pelos professores da rede estadual de ensino vêm a tona, bem como a forma de “ordem” imposta pelo então governador tucano. Eleito recentemente.

Como não conheço a realidade do dia-dia dos docentes desse município ou do estado do Paraná, arrumei uma outra forma de tentar neutralizar a argumentação partidária em cima do que está ocorrendo e que, na minha visão, está passando despercebida.




Para a minha realidade ou, para ser mais preciso, usando o conceito de “território” em geografia, é interessante notar que a “violência” da sociedade, e portanto, do Estado sobre um grupo de pessoas, persiste contra os docentes.  O que muda são os meios para se garantir a tal da “ordem”. E, como tal, não é a educação; ou o contracheque, para ser mais preciso, dos docentes; a prioridade para grande parte da sociedade.




Vejamos como a realidade do Paraná se ajusta em Minas Gerais, independentemente de partido político:

"Tentamos conceder aumento aos servidores, repondo os índices da inflação. A bancada do PT e do PMDB, obviamente por ordem do palácio, votou contra e não permitiu. Lembrando, tentamos (a Assembleia de Minas) aqui votar o aumento para a educação, que sempre foi a bandeira da liderança do PT nesta Casa, que os índices de aumento para a educação fossem os mesmos concedidos pelo governo federal".
"Obviamente toda a comunidade escolar, os professores e servidores, tinham a convicção de que agora, sim, seria o momento desse tema (a pauta da educação) ser aprovado. O PT votou contra nesta Casa. O PT e o PMDB". Fonte: Aqui

Na minha concepção, violência é não deixar o contracheque seguir a lógica do mercado. Assim, erros de sindicatos, planejamento e de economia de governos pressionam os docentes a mudarem seus consumos e hábitos. A alavancagem da disponibilização de cursos de licenciaturas tem, como consequência, despertado grupos de indivíduos contrários da ordem da sociedade e das "leis do mercado". É a ordem na desordem acontecendo e seu inverso... Na já conhecida organização da sociedade brasileira. "Deitada em berço esplêndido" e do "conforto", pelo menos no aspecto cognitivo, não há de sair de modo breve...

Quero encontrar professores e estudantes nas escolas, em boas condições para se realizar bons trabalhos... Isso se chama motivação, ainda que valha, diante de uma grande parcela da sociedade às escuras.




Referências:

MORIN, Edgar. O Método I: A Natureza da Natureza. 2. ed. Lisboa: Publicações Europa América,1977, 363 p.

___________. Ciência com Consciência. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, 350 p.

domingo, 4 de janeiro de 2015

ELEMENTOS BÁSICOS À DIFICULDADE METODOLÓGICA EM SALA DE AULA




ELEMENTOS BÁSICOS À DIFICULDADE METODOLÓGICA EM SALA DE AULA 

Em uma sociedade existem diversos sujeitos com pensamentos distintos reunidos em tribos sociais, que encontram suas identidades e simpatias com pessoas de mesma feição psíquica. Ambos passam por diferentes experiências ao longo de suas vidas, diversas formas de adaptação às normas impostas pelos poderes socialmente aceitos e por diferentes tipos de controles sociais.
Nesse sentido, existem diversas hipóteses para a formação da subjetividade dos sujeitos. No contexto da educação enquanto meio para se chegar à civilização do indivíduo, irão se tecer algumas considerações acerca da proposta de uma nova escola, uma nova abordagem para o aprendizado do sujeito e, portanto, algumas observações quanto à formação do conhecimento.
 A construção da experiência, segundo Freud (2006), se dá pela distinção de prazer e desprazer que o homem, desde seu nascimento, vai desenvolvendo. A criança, por exemplo, vai descobrindo essa distinção ao sentir desprazer com a fome e prazer ao saciá-la: Uma criança recém-nascida ainda não distingue seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo. Reagindo a diversos estímulos. Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação, que posteriormente identificará como sendo seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações a qualquer momento, ao passo que, de tempos em tempos, outras fontes lhe fogem – entre as quais se destaca a mais desejada de todas, o seio da mãe –, só reaparecendo de seus gritos de socorro (FREUD, 2006, p. 13).
A fronteira para a construção da psique da criança é pela busca de prazer,que é obtida através da experiência. A criança vai descobrindo as sensações de causa dos sofrimentos como dores e fomes, sensação interior ao corpo, e o sentir frio, que provém de seu exterior aos sentidos. A diferenciação dos prazeres atribui conhecimentos a partir da experiência. Dessa forma, a criança vai diferenciando o que é externo e interno de seu corpo, como o ato do choro, situação especial de comunicação, buscando acesso com outra pessoa para a solução de seu sofrimento, fome, por exemplo.
Na proposta para uma educação nova, Dewey (1971) aponta que as experiências adquiridas são capazes de formular propósitos. Um dos exemplos é o ato da criança não tocar o fogo, porque obteve, talvez, experiência com uma queimadura. Assim, formula-se um juízo de valor e a criança, sempre que se aproximar do fogo, irá consultar o seu coquetel cognitivo, memórias, a fim de tornar consciente que o contato com o fogo pode causar-lhe enfermidade. Entende-se, nesse sentido, o porquê da criança, em épocas de frio, se aproximar do fogo e a evitar o contato com ele para sanar suas sensações de baixas térmicas: Uma criança vê o brilho de uma chama e se sente atraída (impulso) para tocá-la. A significação da chama não é, então, o seu brilho, mas seu poder de queimar, como consequência do ato de tocá-la. Só podemos ter consciência, conhecer as consequências devido a experiências. Em casos comuns, devido à muitas experiências anteriores, não há que parar para lembrar quais foram essas experiências. A chama passa a significar luz e calor, sem que tenhamos de pensar expressamente em prévias experiências de calor e queimadura. Mas, em condições novas ou pouco habituais, não podemos dizer quais as consequências observadas, sem recordar em nossa mente experiências passadas e sem refletir sobre elas e analisas os aspectos em que são similares à experiência em curso, a fim de poder chegarmos a um juízo sobre o que esperar da situação presente (DEWEY, 1971).


 

            A formação de propósitos depende da experiência que o sujeito adquire durante a vida para todo o processo cognitivo posterior. Logo, a criança engloba a observação das circunstâncias e condições ambientes; conhecimento do que aconteceu em situações similares no passado, obtido, em parte, pela lembrança e, em outra parcela, pela informação, conselho ou aviso de cuidado dos que tiveram maiores e amplas experiências; julgamento e juízo, ou seja, a operação pela qual se observa e o que se recorda para a conclusão sobre o significado de toda a situação exterior, para a formação do propósito de ação.



Dewey (1971) aponta que o problema crucial da educação é o de conseguir o adiamento da ação imediata - impulso, do desejo de a criança colocar a mão no fogo, através do julgamento subjetivo. Enquanto Freud (2006) acredita que a experiência é a capacidade, cada vez maior, de o homem poder distinguir o que lhe dá prazer ou desprazer ao longo da vida, para se chegar ao desejo de felicidade. A título de conclusão, Freud (2006) está pensando na formação do ego, enquanto Dewey (1971) está com o pensamento no uso das experiências passadas (das crianças e dos professores) à escola nova e progressiva. A adaptação do sujeito na sociedade ocorre através das experiências que as pessoas trocam entre si. Logo, a experiência tem como parte objetiva o contato com as pessoas, pois é imprescindível para exercício da sabedoria em, com experiências mais amplas, futuras inclinações cognitivas. Freud (2006) aposta que o sujeito, sem neuroses, é passivo às normas impostas pela sociedade, como leis e culturas, através do sentimento de culpa e o possível remorso (naquele após pensar na ação que é contra os dogmas da sociedade e neste quando já praticou a ação) do sujeito quando aceita as imposições da sociedade para se tornar membro dela. O controle do sujeito, para Freud (2006), se dá através das normas impostas pela sociedade, ele se abstém de seus instintos primitivos em troca de segurança aos demais instintos; um exemplo é a própria seleção natural de Darwin, no qual o ser humano, por ser um animal, contém a agressividade em seu ego. Porém, como sugere a lei do mais forte, ao transferir as ideias de Darwin para explicar os fenômenos sociais, Spencer criou uma forma, mesmo que inconscientemente, de legitimidade e dominação entre os povos. Admitindo que a inclinação para a agressão seja o impedimento do sujeito a se sujeitar às leis da sociedade, a agressividade é controlada: Sua agressividade é introjetada, internalizada; ela é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí é assumida por uma parte uma parte do ego, que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de “consciência”, está pronta para por em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos (FREUD, 2006, p. 85).



Os conteúdos do superego são, por exemplo, as leis que regem a sociedade e os dogmas da igreja, pois sem essas se teriam pessoas em seu estado primitivo ou sujeitas aos impulsos que provém do ego. Nesse sentido, não se chegaria à consciência coletiva e, muito menos, a uma civilização. Dewey (1971) aponta que o caminho para se atingir a civilização ocorre pela via da educação, ou seja, através das experiências que foram adquiridas, um exemplo que ele utiliza faz referência aos jogos, pois envolvem regras e regras ordenam seu comportamento. Jogos não são atividades do acaso, nem improvisações, sem regras não há jogo. Daí a conclusão de que o controle das ações individuais é efetuado pelas ações globais em que os indivíduos se encontram conectados, porque se tornam partes de uma comunidade. Nesse exemplo, o controle social é efetuado em acordo com um grupo de jogadores ao se submeterem às regras, dando natureza a um conjunto de responsabilidades pessoais que, então, são partilhadas entre eles.
Concluem-se as diferentes posições quanto à formação psicológica do sujeito no âmbito da sociedade. Dewey (1971) aponta para o caminho de uma experiência planejada – interação professor e aluno - que inclina o sujeito para o controle das condições impostas pela sociedade. No sentido de que o aluno seja capaz de formar na consciência, através da sujeição, esses controles. Enquanto Freud (2006) acredita que a liberdade do indivíduo (os impulsos) é “inferiorizada” pela sociedade através de leis gerais1. Assim, o conhecimento das leis gerais que regem a natureza não é garantia de felicidade. Não se pode compreender ou formar sujeitos tendo-se em vista um método geral. As pessoas são distintas e não se admite desconsiderar os mecanismos que integram a consciência, porque “a natureza dotou os indivíduos com atributos físicos e capacidades mentais extremamente desiguais” (FREUD, 2006, p.70). Essa é a grande dificuldade ao se tentar adotar um método geral nas escolas de ensino regular.
Porém, o resgate às ideias de Dewey (1971) apresentadas ocorrerá pela via de sua proposta a uma teoria da experiência, que forneceram bases teóricas à construção da prática pedagógica desenvolvida, não é a intenção de este artigo propor discussões mais pronunciadas sobre suas obras, acredita-se que propor um método científico à formação do saber em sala de aula pode vir a ser uma via perniciosa, uma vez que grande parte das ciências humanas rejeita, na época atual, a relação causa-efeito – causalidade – sobre seus objetos de estudo como compreensão a determinado fenômeno. Do contrário, a persistência teórica ficaria retida, uma vez que a decantada interdisciplinaridade e a própria totalidade dos fenômenos impedem, de fato, o método experimental proposto por Dewey (1971). Também, é evidente que a função da escola básica brasileira para a sociedade segue um caminho completamente diferente da proposta pedagógica de uma universidade. Assim, toda a teoria de educação realizada a partir do pensamento de Dewey (1971) insistirá, como ponto principal, na restituição da aprendizagem ao caráter natural que ela tem, ao menos poderia ter, às posições cognitivas futuras à vida das pessoas.




1 Entende-se como leis gerais: leis de natureza científica, judiciais e dogmas da religião.

Referências

DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Editora Nacional, 1971.

FREUD, S. O Mal- Estar Da Civilização. Obras completas, vol. XX I. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2006